Dias, semanas, meses. Tempo demais para quem aguardava Justiça. Tempo de menos para quem ainda tinha vida. Dentro de uma cela, longe da família, Cleriston pedia apenas o mínimo: olhem para mim, eu estou doente. Mas o silêncio foi a resposta.
O Estado ouviu. E calou.
O Estado viu. E não agiu.
Em vez de julgamento, veio a espera. Em vez de cuidado, veio o descaso. Em vez de pena, veio a morte — sem sentença, sem direito à defesa, sem misericórdia.
Quantas vezes ele avisou que não estava bem? Quantas laudas médicas, quantos pedidos ignorados? Se a Justiça é lenta, ela não pode ser surda. Se o Estado prende, ele assume a responsabilidade de manter vivo aquele que prendeu. Não fez. E por isso falhou.
Cleriston não foi apenas uma vítima de doença — foi vítima da morosidade, da burocracia, da indiferença. Se estivesse em liberdade, poderia ter se tratado. Mas sob custódia do Estado, morreu esperando. Morreu pedindo socorro para quem tinha a chave da cela… e virou estatística.
Que ninguém tenha coragem de chamar isso de fatalidade. Fatalidade é o inevitável. O que aconteceu com Cleriston foi evitável — e por isso imperdoável.
Hoje, o relógio da consciência nacional está marcando uma hora incômoda: o tempo da responsabilidade. Porque quem morre sob os cuidados do Estado não leva consigo apenas a própria vida — leva também a honra de quem deveria protegê-la.